Libertação Sexual?

Entre os anos 60 e 70, ocorreu no Ocidente o que chamamos de Revolução Sexual. Uma perspectiva social de quebra de códigos tradicionais de comportamentos relacionados a sexualidade humana e aos relacionamentos interpessoais. Isso inclui a chegada da pílula anticoncepcional e a possibilidade de um método efetivo de contracepção, desvinculando o sexo da reprodução.

A pílula trouxe um impacto sobre a autonomia das mulheres frente ao próprio corpo e sobre a tomada de decisão em ter filho e quantos filhos. A mudança comportamental para as mulheres em relação ao sexo (o que inclui o sexo fora do casamento) foi considerada um ato de libertação. Ok, até aí tudo bem… Contudo, alguns efeitos merecem uma análise para a compreensão do quanto isso configurou, realmente, ou não, em um ato de libertação para a sexualidade das mulheres.

A partir do momento que as mulheres passaram a ter a autonomia sobre o próprio corpo e a tomada da decisão pelo planejamento familiar, passou-se a reforçar a falta da responsabilidade masculina pela contracepção e a paternidade (claro, estou falando de uma sociedade patriarcal e machista, onde os homens eximem-se, normalmente, de suas responsabilidades sobres esses processos). Além do mais, estudos tem associado os anticoncepcionais hormonais (especialmente, os de via oral – pílulas) a diversos efeitos colaterais, entre eles a diminuição do desejo sexual. O estrogênio presente nos AC aumenta o SHBG, diminuindo os níveis de testosterona livre e biodisponível das mulheres, essenciais na fisiologia do desejo sexual feminino. Um estudo publicado no Journal of Sexual Medicine, em 2010, realizado pela Universidade de Heidelberg (Alemanha) com mais de 1 mil mulheres, apresentou a diminuição do desejo sexual em mulheres como um efeito colateral do AC. Pelo menos 1 sexto das participantes relataram a diminuição do desejo sexual.

Mais recentemente, em 2016, outro estudo sobre o efeito dos contraceptivos hormonais no desejo sexual, realizado pela Universidade de Washington, e publicado na Obstetrics & Gynecology, não encontraram associação entre os métodos contraceptivos e a falta de interesse em sexo. Isso levou os pesquisadores a concluírem que os profissionais devem estar seguros de que a maioria das mulheres não experimenta redução do desejo sexual com o uso dos métodos contraceptivos. Só que o estudo foi realizado ao longo de 6 meses, e a realidade nos mostra mulheres que utilizam métodos hormonais por longos anos, como único método preventivo de gravidez indesejada. Meninas, cada vez mais cedo, começam a usar a pílula ou outros métodos hormonais, como forma de prevenir a gravidez precoce, ao iniciar a vida sexual. E preciso chamar a atenção para outro detalhe muito importante, isso acaba por reforçar o descaso com a utilização do preservativo, único meio de se prevenir DST, e responsabilizar uma adolescente pela prevenção da gravidez precoce. Isso desencadear e perpetuar os modos abusivos de se relacionar.

O que era para ser uma revolução sexual a favor da liberdade feminina, no fim das contas a deixou ainda mais aprisionada a repressão a que é submetida culturalmente. Claro que, o desejo depende de inúmeros fatores biológicos, psicológicos e socioculturais, não apenas dos hormônios. Mas, a conjectura como um todo não é tão favorável assim a mudança no comportamento sexual feminino e masculino. E a sociedade entende que uma mulher sem desejo ‘em casa’, abre espaço para que o homem ‘procure fora’… Ou seja, mais uma vez se autoriza a traição… Para os homens! Será que diante de todos essas questões elencadas, será que a Revolução Sexual contribuiu, realmente, para a libertação sexual feminina?

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