Relacionamentos, medos, apego e amor

Para Jiddu Krishnamurti na ligação com algo ou alguém há sempre o medo de perder o que temos, existindo sempre a sensação de insegurança. Em alguns relacionamentos esse medo acaba sendo a base conjugal, pois manipula-se o amor através do medo no outro. Porém amor nenhum sobrevive a controle e dominação. O amor é livre e respeita o outro assim como é, na sua essência.

Apesar da maioria dos casais viverem relações simbióticas, e não autônomas, é importante a reflexão sobre os mecanismos dessa ligação que causa sofrimento, tanto àquele que mantém o apego, quanto ao que vive sob o medo. Para Bowlby (1979/1997) o apego é um tipo de vínculo, no qual a figura de apego é estreitamente ligada ao senso de segurança da pessoa. No relacionamento, torna-se possível explorar o mundo através da base segura advinda da segurança e do conforto experimentados na presença da figura de apego.

Vou contar brevemente a história do príncipe e da andorinha para ilustrar e clarificar um pouco desta relação. Havia um príncipe, que vivia aborrecido em um castelo, na companhia de um único servo. Ele passava os dias na janela, há espera de que algo novo acontecesse. Em uma manhã de primavera, uma andorinha pousou nesta janela e fez um lindo canto. O príncipe ficou maravilhado com sua delicadeza e maestria. Aquela andorinha parecia ser única. A partir deste dia, o príncipe aguardava ansiosamente pelo retono da andorinha. E quando isso aconteceu, ficou muito feliz e passou a se preocupar com aquela andorinha. No próximo encontro, essa preocupação aumentou, o que fez com ele construísse uma casa para a andorinha. Quando a andorinha aparecia, usufruía da casa para comer e tomar água, o que fez com o que príncipe acreditasse que ela gostava daquilo. Passou um tempo e ela não regressou. O príncipe sentia-se ansioso e pensava “será que ela encontrou melhor comida”, “e se encontrar uma casa melhor”, “teria outro príncipe construído casa melhor”, “não posso permitir que isso aconteça”… Foi então que ele resolveu colocar uma porta com cadeado na casa da andorinha. E quando ela voltou e entrou na casa para comer, ele trancou a porta prometendo que nunca lhe faltaria nada. A andorinha estava confusa, e acabou se deixando levar pela comodidade. Afinal, a confusão existe para não se sentir. A gaiola ficava na cabeceira do príncipe, para que todas as manhãs pudesse olhar sua andorinha e escutá-la cantar. A andorinha pensava “esta vida não é tão ruim”, então cantava. Contudo, com o passar do tempo, seu canto foi diminuindo, até que fico muda. O príncipe a questionava, e ela respondia que não havia mais a inspiração de antes para cantar. E ele continuava a acreditar que estava lhe protegendo. Certo dia, o príncipe acordou assustado, e quando foi acariciar a andorinha, ela estava morta…

A história mostra como, muitas vezes, os medos de uma pessoa se impõem diante dos desejos e direitos do outro. E a pessoa que vive, acuada e oprimida, em função do outro, acaba não vivendo seus próprios sentimentos e sua espontaneidade. Em alguns casos, o medo ‘do poder e controle’ do outro é tão grande, que a pessoa passa a apresentar pensamentos e comportamentos paranóides. Já a pessoa que mantém o apego, quer fazer tudo pelo, para e com o outro, tornando-oresponsável por sua felicidade. E desta maneira, não se dá conta que acaba o prejudicando, pois quer transformá-lo, afastá-lo de sua essência e de sua felicidade também.  Diante, do próprio vazio, não se deixa o outro ir e acaba por se estabelecer uma relação de dependência, cada vez mais doentia. A pessoa se acha a única capaz de proteger e cuidar do bem-estar da figura de apego, e essa por sua vez, acaba sendo privada de toda a sua liberdade.

O apego faz com que a pessoa confunda e exagere as qualidades do outro, tornando-o insubstituível, o que aumenta a ansiedade ao imaginar uma possível perda. Ao longo do tempo, a figura de apego se torna cada vez mais sufocada, culpada por não corresponder às expectativas, mas nem sempre consegue se libertar dessa prisão emocional que passou a viver. Nem todos conseguem compreender que amor e apego são diferentes, por isso vivem relacionamentos simbióticos. O primeiro passo para se libertar de um relacionamento destrutivo é tomar consciência, depois se tornar protagonista de sua própria história.

Amar é aceitar e respeitar o outro tal como ele é, torcer por sua felicidade sem colocar à frente as próprias necessidades. É deixar a andorinha voar, e se voltar…

 

Referência: www.amenteemaravihosa.com.br

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *